Existe um Design Cerâmico Brasileiro?

Tradicionalidade do patchwork com a alegria das cores brasileiras em revestimento cerâmico – Tecnogrés

Em outras palavras, existe um estilo brasileiro de se fazer design para revestimentos cerâmicos no mesmo sentido em que existe um design italiano, por exemplo?

A retomada do crescimento econômico do país na última década, o surgimento de uma nova classe média e a gradual superação do enorme déficit habitacional existente proporcionaram uma ampliação no consumo de revestimentos cerâmicos no Brasil.

Com este fortalecimento do setor cresce proporcionalmente a responsabilidade do design, uma vez que este novo contexto apresenta também um consumidor muito mais exigente e concorrentes internacionais muito mais acessíveis. Desta forma, aumenta a demanda por um design de qualidade que se baseie e enfatize as características culturais, estéticas e de consumo do mercado brasileiro. Um design que tenha efetivamente a cara de nosso país, com toda sua diversidade e riquezas.

Mas quais são estas características? Que fatores atribuem qualidade indiscutível ao Design Cerâmico de países tradicionalíssimos no setor, como Espanha e Itália?

O design europeu sempre foi uma grande referência para a indústria cerâmica dos demais países do mundo.

Diferenciavam-se pela forma arrojada, inovadora e criativa com que exploram novas técnicas, cores e formatos. São referência inclusive no próprio processo de produção, através de novos equipamentos, novas técnicas de fabricação e a otimização da cadeia produtiva de revestimentos cerâmicos.

Esses diferenciais são resultado de uma profunda valorização de sua cultura, sua história e suas inspirações. Desta forma, este design reproduz e dissemina riquezas de seu patrimônio como os mosaicos de Barcelona, a diversidade cultural de Madri, a tradição de Valência, os mármores de Roma, a moda de Milão, a riqueza estética de Veneza, as inovações tecnológicas de Bologna, etc.

Revestimento cerâmico com similaridade das pedras brasileiras em cores e texturas – Tecnogrés

 

Itália e Espanha são o berço do revestimento cerâmico com seus cursos e centros de pesquisas, sempre descobrindo novas formas de se empregar e reciclar cerâmica e porcelanato. Trata-se de um ciclo virtuoso em que ensinam e aprendem com o mundo todo, sempre reinventando o seu próprio fazer.

 

Neste contexto, a valorização de seus profissionais do setor é primordial e se faz através de intercâmbios e cursos de atualização constantes. São estes profissionais que podem ser encontrados por todo canto do planeta instalando equipamentos, aperfeiçoando processos, contribuindo para que indústrias do mundo todo produzam com mais qualidade e menos custo. Com o “know how” europeu, é claro.

Outro player de destaque deste cenário é a indústria chinesa que muitas vezes abre mão de um design com identidade nacional em prol dos ganhos proporcionados por sua gigantesca escala de produção.

Com este poder de escala, a China fabrica revestimentos cerâmicos e porcelanato para o mundo inteiro. Porém, sua produção se baseia em estilos e design já estabelecidos, padronizados pelos importadores estrangeiros, pois não existe um desenvolvimento e pesquisa nacionais com esse foco. Ou seja, a prioridade é a otimização fabril, com baixo custo e grande produtividade.

A ausência de centros de pesquisas chineses e este seu foco na produção favorecem os clientes internacionais que visam obter somente “cópias” mais baratas de produtos estrangeiros de design reconhecido. Isto é, tais clientes identificam tendências européias e as levam para ser produzidas em escala pela indústria chinesa.

Revestimento cerâmico que traz a beleza das pastilhas de vidro com a praticidade na aplicação e manutenção – Incefra

É o chamado design genérico, sem personalidade ou identidade nacional. Por isso, a qualidade dos produtos chineses sempre foi considerada duvidosa. Entretanto, hoje em dia sua produção já pode ser considerada tecnicamente superior aos seus correspondentes fabricados no Brasil. Somando-se os baixos custos produtivos e a baixa tributação daquele país sobre suas exportações, os revestimentos “made in China” se tornam muito interessante – ainda que com um baixo apelo em termos de design.

Então como fazer frente, por um lado, à qualidade indiscutível do design europeu e, por outro, ao crescimento do design genérico chinês? A resposta é uma só: um design de qualidade com as peculiaridades do Brasil.

A discussão sobre um design de características nacionais já é antiga, vem pelo menos desde a criação da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) em 1963, e envolveu designers de grande renome como Alexandre Wollner, Geraldo de Barros, Aloísio Guimarães, Walter Macedo, Chico Homem de Melo, entre outros. Sempre com a obrigação de superar a desconfiança e comprovar sua qualidade.

Mais recentemente, designers como os Irmãos Campana e Romero Britto tiveram suas criações reconhecidas primeiro no exterior para só depois começarem a ser aceitos em seu próprio país. Desta forma, ainda que gradativamente, o Brasil começa a reconhecer suas riquezas e valores e, com isso, o consumidor nacional passa a aceitar melhor produtos com nossas próprias características.

Com isso, ganham espaço profissionais do design que buscam desenvolver uma identidade própria, brasileira e autoral, como Marcelo Rosenbaum, Renata Rubim, Fábio Galeazzo, Guto Requena, Adriana Yazbek e outros.

E qual é o caminho para se fortalecer o crescente design cerâmico brasileiro?

Painéis cerâmicos 33×50 com motivos brasileiros – Incenor

Os incentivos de instituições como Aspacer, Anfacer, Museu Casa Brasileira (MCB) – e até autônomos – são de grande importância para estimular profissionais e empresas a valorizarem e retratarem nossos hábitos, costumes e belezas. Desta forma também, são fundamentais o crescente número de concursos de design, os intercâmbios de experiências e os treinamentos no exterior, além de seminários, encontros, cursos e palestras que favoreçam a formação crítica e criteriosa do designer cerâmico brasileiro.

Assim, podemos concluir que enquanto o Brasil continua adquirindo “design” de estúdios e fornecedores italianos e espanhóis, bem como é invadido pela poderosa escala de produção do design genérico chinês mas, paralelamente, também estamos buscando desenvolver de forma gradual uma identidade própria, rica, diversa e multicultural.

Camila Lamberti

Designer e Gerente de produtos, Camila Lamberti atua em uma empresa de grande porte do setor cerâmico nos estados de São Paulo e Bahia e tem como foco a pesquisa de tendências e conceitos que conquistem os consumidores. Com isso, Camila está sempre um passo a frente em relação às novidades do mercado de produtos para arquitetura, decoração, design e acabamentos.

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